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Raul Leal



Ilhas - Centro Cultural Justiça Federal
Curadoria e texto crítico: Daniela Name

Shopping centers são centros comerciais onde o que menos importa é a convivência. A ode ao consumo caminha em paralelo com a despersonalização dos lugares e do relacionamento entre as pessoas. Transitar por seus corredores assépticos e frios leva as pessoas a “não-lugares”, nos quais o desconforto causado pelo vazio evita que o consumidor permaneça muito tempo no mesmo local, estimulando a circulação pela lojas e a compra. Em sua individual “Ilhas”, em cartaz de 17 de abril a 31 de maio no Centro Cultural Justiça Federal, o artista plástico Raul Leal questiona a natureza desses lugares por meio de pinturas a partir de fotos de vários ambientes de shopping centers. Por meio da pintura, esses espaços ganham cor, e alguma possibilidade de vida.


“Os corredores dos shoppings são espaços ocos, onde nada acontece. Daí o nome da exposição, que remete ao isolamento e ao tédio. Isso é reforçado por uma arquitetura padronizada, que não remete a um lugar que possa ser fixado na memória das pessoas. Shoppings são iguais em qualquer lugar do mundo”, observa Raul.

A mostra atual dá sequência à pesquisa do artista sobre a paisagem urbana. Ele se interessa pela rua e como as pessoas interagem com a cidade. Para isso, utiliza a mesma técnica de trabalhos anteriores: as pinturas começam com a fotografia. Leal projeta fotos de espaços urbanos, manipulados digitalmente, removendo os elementos que considera excessivos e tira dessa imagem a ideia para a obra.


A figura humana é essencial no trabalho de Raul. Ela se relaciona com o espaço urbano, seja a rua ou o interior do shopping, mas é apresentada de forma pouco nítida, por meio de silhuetas e sombras. É a proposta de seu trabalho mostrar como o humano pouco consegue interagir com seu entorno. Suas obras visam a causar esse estranhamento e mostrar como as relações das pessoas com o espaço e entre si estão cada vez mais fluidas e fugazes.

“O espaço urbano não é mais um espaço de convivência. Tornou-se, em geral, lugar de passagem, seja nas ruas, seja dentro dos shoppings. Há uma clara falta de identificação nas cidades contemporâneas. Elas não convidam à relação e sim à indiferença”.


No caso dos shopping centers, tema da exposição no Centro Cultural Justiça Federal, a situação é ainda mais complicada, segundo Leal. Nesses locais, a desumanização visa a alimentar o consumo compulsivo na criação de um comportamento calculado para inibir a socialização.


“A arquitetura do shopping é feita para as pessoas irem de um ponto A ao ponto B. O objetivo é estimular a compra. Diferentemente da rua, que é um ambiente aberto ao acaso, onde qualquer coisa pode acontecer, e que imprime uma memória afetiva, nos shoppings, o ambiente é absolutamente controlado e inibidor. O aparato de segurança deixa claro, com seu circuito interno de câmaras e grandes homens ameaçadores de terno e gravata, que quem entra no shopping deve consumir. E ir embora. Daí a grande discussão que se deu por conta do fenômeno dos rolezinhos. Os jovens da periferia, com poucas opções de lazer, escolheram o shopping para socializar, rompendo esse paradigma e trazendo uma possibilidade de caos que não pode ser absolutamente permitida num ambiente que se pretende público, mas é privado”, analisa o artista.



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Como se não houvesse espera - Ivair Reinaldim

Como se não houvesse espera apresenta no Centro Cultural Justiça Federal (CCJF) um recorte da produção de Elisa Castro, Eloá Carvalho, Luane Aires, Maria Mattos, Patrizia D’Angello, Raul Leal, Rebeca Rasel e Viviane Teixeira, jovens artistas da cidade do Rio de Janeiro. Com curadoria de Ivair Reinaldim, reúne pinturas, desenhos, fotografias, vídeos e uma intervenção espacial, um conjunto de propostas visuais que versam sobre situações e temas relacionados a silêncios, pausas, partidas e esperas, limites e passagens entre o interior e o exterior.


Partindo da pintura Menina lendo uma carta junto à janela aberta (c. 1657), do holandês Jan Vermeer, o curador procurou salientar referências visuais/metafóricas como CARTA e JANELA. Carta simboliza aquilo que vem de fora para dentro, as notícias, as boas novas, o ausente que se faz presente. Janela é uma membrana, película que separa o interior do exterior, evidenciando receptividade para o que vem de fora. Estar diante da janela é também desejar (aquilo ou alguém que está distante). A passagem literária de Alain Robbe-Grillet para o roteiro original de O ano passado em Marienbad (1961), também forneceu alguns signos importantes para o projeto, em diálogo com a arquitetura eclética do CCJF, tais como UMBRAL e JARDIM. O umbral da porta, estrutura que marca a passagem, a caminhada, o deslocar-se no espaço, está presente de modo emblemático no ambiente expositivo; o jardim representa o exterior, o lado de fora, o sair para o mundo, em direção ao paraíso alcançado. A partir desse repertório chave, novos signos surgem: a mesa, o corredor, o espelho, a cortina, a neblina; enfim, toda uma série de alusões na passagem sutil entre a carta e a janela.


“Carta simboliza aquilo que vem de fora para dentro, as notícias, as boas novas, o ausente que se faz presente. Janela é uma membrana, película que separa o interior do exterior, evidenciando receptividade para o que vem de fora. Estar diante da janela é também desejar (aquilo ou alguém que está distante)”, diz o curador.


Como se não houvesse espera
Curadoria: Ivair Reinaldim
 
Artistas: Elisa Castro, Eloá Carvalho, Luane Aires, Maria Mattos, Patrizia D’Angello, Raul Leal, Rebeca Rasel e Viviane Teixeira

Centro Cultural Justiça Federal (CCJF), 3o andar
Abertura: 16/01/2014, às 19h
Visitação: de 17/01 a 27/02, terça a domingo, das 12h às 19h
Conversa com curador e artistas: 20 de fevereiro, às 18h
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Raul Leal utiliza em sua produção artística os meios da pintura, desenho, fotografia, instalação e vídeo. Sua produção é ligada aos temas do cotidiano urbano e aspectos da cultura brasileira. Frequentou a Escola de Artes Visuais do Parque Lage RJ de 2005 a 2011, em cursos de pintura, desenho, história e teoria da arte, com João Magalhães, Daniel Senise, Suzana Queiroga, Anna Bella Geiger, Fernando Cocchiaralle, entre outros. Frequentou o Grupo Alice sob orientação de Brígida Baltar e Pedro Varela em 2011 e 2012, o grupo de estudos com Ivair Reinaldim em 2012 e 2013, e o grupo de estudos sobre arte contemporânea com Daniela Name em 2014. É especialista em gestão cultural pela Fundação Cecierj RJ.


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